sábado, 15 de janeiro de 2011

VALORES E VIRTUDES: POLIDEZ


Com muita honra publico abaixo o excelente texto que recebi por e-mail, da autoria do querido Professor Sebastião Verly, que é um grande colega com o qual tive o privilégio de trabalhar na CDL.

“Comparada com outras virtudes – o amor, coragem, a justiça, moderação – a polidez é considerada uma ‘virtude menor’, porém, é necessária para a boa convivência humana. Ela é a primeira virtude, e talvez a origem ou base de todas elas. É verdade que é a mais superficial, a mais discutível, mas, ela parece ser a porta de entrada para se aprender as outras virtudes, observa o filosofo francês André Comte-Sponville no seu livro Pequeno tratado das grandes virtudes. A polidez mostra-se, hoje em dia, tão indispensável quanto todas as grandes virtudes e conquistas da nossa civilização.

O primeiro país a se preocupar com a polidez em tempos de globalização foi a França. Antes da Copa de 1998, a intelectualidade e os empresários do turismo daquele país se reuniram para debater como melhorar a polidez dos franceses, Antes, em 1991, naquele país, houve um evento reunindo historiadores, psicanalistas, antropólogos, educadores, teatrólogos, onde foi debatido o tema da polidez, que resultou na publicação do livro “A polidez: virtude das aparências” (organizado por Régine Dhoquois, traduzido por Moacyr Gomes Jr, publicado no Brasil pela LP&M, em 1993). Esse encontro é referência para se pensar o assunto no mundo todo.

Começo a minha parte na conversa, por dizer que a polidez é exclusiva de pessoas muito inteligentes que se esforçam a cada segundo para ser – de fato e na pratica do cotidiano - uma pessoa sensível, compreensiva, paciente e tolerante, com atitudes e comportamentos do outro, especialmente com o que não nos agrada nas pessoas de nosso convívio duradouro ou temporário.

Algumas pessoas gabam-se de ser “transparente” – leia-se “não ter papas na língua”. Mas, a vida em sua plenitude exige mais do que transparência, rude franqueza, direitos e razão.
Quando chegamos à maturidade que nos permite definir o que queremos na vida, podemos escolher uma maneira de viver considerada mais sábia que é a doçura nos nossos relacionamentos. Na idade madura devemos oferecer mais doçura. Só depois de enfrentar tantas e tão variadas situações nos relacionamentos pessoais, profissionais, amorosos e de amizades decidimos firmemente passar a ver o próximo com suas manias, idiosincrassias e especificidades, compreendendo e tendo a serenidade de conviver com todas elas da melhor maneira. Amabilidade, amor, compreensão, paciência e tolerância. E até uma boa dose de saudável bom humor para apimentar ou adocicar a polidez.

A polidez é como um seixo (pedra polida de um rio): a vida, a experiência, a educação e o tempo podem lapidar o sujeito nos seus atos e palavras. Como dizia o verso do poeta indiano Tagore: "Não é o martelo que torna os seixos perfeitos; é a água com sua dança, sua paciência e o tempo..." Assim, essa nossa dança nas águas da vida, ao longo dos anos, vamos nos permitindo aprender a polidez tão necessária como ar que respiramos.

Mas eu sei que é possível antecipar esse aprendizado. E é isso que ensino ao meu filho. Que ele se esforce para ser gentil com todo mundo enquanto ainda é jovem.

Já ouvi falar de escolas que estão despertando para esse problema, fazendo a sua parte, ou seja, promovendo cursos sobre “etiqueta social” ou “polidez”, como já acontece nas escolas japonesas e européias. Antecipo que estas instituições demandam, primeiramente, um efeito de civilidade no seu próprio espaço. Mas, é bom que a escola comece a discutir com os alunos os limites éticos e regras de convívio em todos os campos da vida real ou virtual. Uma pessoa com uma boa socialização familiar, com uma excelente formação escolar, com vivência entre gente civilizada que sabe demonstrar finura e boas relações, com muito maior probabilidade, terá sucesso em todos os campos: intelectuais, artísticos, profissionais e, terá também maior prazer, nas relações familiares, conjugais e amorosas. Há quem identifica nesta virtude, a polidez, um “moderador psíquico” (sic), permitindo às pessoas se harmonizar com as diferenças humanas que nos tornam únicos. Somos todos diferentes. O que realmente importa é o propósito de incluir a polidez como tema transversal a ser ensinado como um saber mais prático do que teórico, para ser exercitado no dia a dia da escola e como porta de entrada das outras virtudes. A polidez é imprescindível na chamada cultura escolar, profissional e familiar de nossa época, para que a humanidade sobreviva e seja preservada.

É preciso reeducar o ser humano, criança ou adulto. Em todos os tempos é necessário ensinar e aprender as pequenas virtudes do lar que são aquelas palavrinhas mágicas que a criança deve ouvir, presenciar e cultivar: Por favor, com licença, desculpe-me, muito obrigado! É trivial dizer que estas palavrinhas só se aprendem pelo exemplo, pela educação e cultura; e, uma vez assimiladas, tornam-se ‘virtudes’ que tendem a permanecer a vida inteira encarnada no sujeito. Até nós quando críticos de nossa civilização “ocidental”, “capitalista”, “burguesa”, hoje reconhecemos que essas regras para a convivência social são facilitadoras da solidariedade entre as comunidades e harmonia entre os povos.

Vale a pena ainda observar que a polidez nos credita respeito e admiração. Até quando temos de fazer uma advertência, uma crítica, uma ação corretiva, podemos agir com ternura e firmeza, ou seja, agir polidamente. Devermos ser firmes sem perder a ternura, jamais, como quis nosso líder Che Guevara. Podemos ser firmes, serenamente claros e decididos, ao mesmo tempo, em que mantemos a delicadeza. O que as pessoas comuns impõem pelo medo, poder e força, as pessoas polidas conquistam – mais e melhor - pela gentileza, delicadeza e doçura. Os bons modos, as boas maneiras, a gentileza, a cortesia, a etiqueta, o respeito, a consideração, a fineza, o trato social, a amabilidade, enfim, a polidez – essa pequena grande virtude – identifica e sinaliza a boa educação e o berço de cada individuo.

Até o meio empresarial vem investindo na aprendizagem das etiquetas próprias deste meio social, tanto para melhorar o "marketing pessoal" perante os outros como para evitar as gafes nas viagens internacionais. A polidez, ainda que possa parecer teatro, faz aparecer o estilo de cada pessoa, seu sentimento e mesmo sua verdade. A polidez através da comunicação deve ser manifestada pelo ouvinte ou receptor e também pelo emissor através da comunicação, através da forma e do conteúdo daquilo que está sendo comunicado. Cada pensamento pode ser expresso através de muitas palavras e de muitas formas diferentes. A pessoa pode expressar através de diversas palavras que tenham significados semelhantes, através de diversos tons de voz e de forma direta ou indireta. Muitos destes vocábulos e formas de expressão, além de comunicar as idéias, também expressam, simultaneamente, diferentes graus de polidez. É imprescindível um curso sobre a polidez na formação dos profissionais que lidam com gente – dos mais altos aos mais simples cargos - como o curso Marketing Pessoal que minha colega, Luiza Miranda, ministra.

Além das boas maneiras, existem algumas conquistas de civilidade: respeito ao outro, necessária igualdade entre as pessoas, democracia, liberdade e justiça. O que primeiro importa na polidez é o respeito ao outro. Quando alguém cede a vez ou o lugar a um homem idoso, a uma mulher grávida, a um doente, está demonstrando o se respeito e consideração. São atitudes aprendidas por meio da socialização e da cultura.

Termino por afirmar que precisamos abrir nossos olhos para enxergar as conquistas de civilidade, para com o discernimento, com a sabedoria de viver e de conviver com o próximo e respeitar as diferenças (pequenas ou extremas) entre os indivíduos.

Só quando atingimos o mais alto nível de reflexão e consciência, saberemos que é fundamental usar a legítima polidez em todas as nossas relações na vida como um todo."

Sebastião Verly 15-1-11

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito show. A polidez é linda, uma ferramenta real de aprimorar o adiantamento moral!